ELEMENTOS SIMBÓLICOS

Sete
Para a cultura cristã, o algarismo 7 corresponde a:
Sete
. Sete céus, sete sóis, sete esferas da antiga astrologia hermética: Sol, Lua, Mercúrio, Marte,
Vénus, Júpiter e Saturno.
. Sete virtudes cristãs (as teologais: fé, esperança e caridade; as cardeais: força, temperança,
justiça e prudência).
. Sete pecados capitais (orgulho, preguiça, inveja, cólera, luxúria, gula e avareza).
. Sete sacramentos (baptismo, Eucaristia, ordem, confirmação, casamento, penitência e extrema-unção).
. Sete dias da criação do mundo narrados no Génesis.
. Sete tabernáculos e sete trombetas de Jericó.
. No Apocalipse:
- sete candelabros; sete estrelas; sete selos; sete cornos; sete pragas; sete raios.
Pode ainda corresponder a:
. sete cores do arco-íris;
. sete notas da escala musical.
Sol
a) O Sol identifica-se com fonte de vida, com a própria vida - o que faz corresponder Sete-Sóis a
Sete Vidas, que, por sua vez, significaria que Baltasar encarna simbolicamente a vida de todos os
homens do povo, sempre labutando e sempre perdendo o fruto do seu trabalho,
independentemente de épocas históricas e de regiões geográficas.
b) O Sol percorre um ciclo celeste diurno de Oriente para Ocidente - assim Baltasar percorre, no
interior da Passarola, um ciclo entre Lisboa e Montejunto; e tal como o Sol, para nascer, segundo
a antiga mitologia, tem que vencer todos os dias todos os guardiões da noite/morte, assim
Baltasar terá que vencer os guardiões da “noite histórica”: a Inquisição, a credulidade popular, as
forças espirituais retrógradas da Escolástica.
E, assim como o Sol atravessa o céu, mas nele não se detém nem o conquista definitivamente
para si, assim Baltasar atravessa o céu, rompe os céus, rasga a imagem pura de um céu morada
de Deus. Neste aspecto, Baltasar, sob as ordens científicas do padre Bartolomeu de Gusmão,
assume o estatuto de herói mítico que ousa desafiar a estabilidade aparentemente eterna da
ideologia cristã. E, para que o simbolismo clássico do herói maravilhoso e trágico que ousa
desafiar os deuses seja cumprido na totalidade, Baltasar morre pelo fogo, como herético, o padre
Bartolomeu de Gusmão morre louco, em Toledo, e Blimunda vagueia pelo mundo sem destino.
c) Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu de Gusmão repetem o desejo de Faetonte, filho
mortal de Apoio, que, querendo imitar o pai, conseguiu deste a promessa de o deixar guiar o carro
do Sol por um só dia. Porém, Faetonte não conseguiu manobrar os cavalos e sustentar o carro do
Sol na abóbada celeste e o carro despenhou-se sobre a Terra, incendiando-a e matando o jovem
ousado. Do mesmo modo, o padre Bartolomeu de Gusmão e Baltasar morrerão devido ao seu
desejo de voar e Blimunda tornar-se-á em mulher errante.
Lua
Se o nome de Sete-Sóis torna esta personagem num quase herói mítico, o nome de Blimunda de
Jesus, Sete-Luas, faz de igual modo repercutir ecos mítico-ancestrais. Antes de mais, o nome
próprio, Blimunda, deriva-nos de imediato para as narrativas baseadas na matéria da Bretanha e
para os ciclos celtas do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Porém, o apelido Jesus
integra desde logo estas possíveis derivações semânticas no quadro do pensamento cristão.
Blimunda não é de origem Sete-Luas; é o padre Bartolomeu de Gusmão que a crisma assim por
ela ser companheira de Sete -Sóis: "... o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e
declarou: Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e,
assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e
bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um." (p. 94)
a) No romance, Sete-Luas só se compreende por directa relação com Sete-Sóis e, de facto, a Lua,
porque não tem luz própria, é o princípio passivo do Sol. Porém, na intriga romanesca de
Memorial do Convento, o narrador histórico revoluciona este princípio simbólico da passividade
feminina e atribui a Blimunda capacidades intuitivas e eco visionárias, dependentes das fases da
Lua, que a tornam, como elemento activo, tão importante quanto Baltasar. S/imunda não se
compreende sem Baltasar, mas este também não tem existência romanesca sem Blimunda,
exactamente como o par antitético mas intimamente complementar de dia-noite, claro-escuro, Sol-
Lua; porém, em Memorial do Convento existe uma substancial diferença: enquanto mitológica e
religiosamente a nossa civilização confere um peso ontológico superior ao primeiro elemento dos
pares antitéticos (o que se explica naturalmente por os olhos humanos terem sido feitos para
receber a luz e não a escuridão), neste romance, Baltasar e Blimunda sofrem de igual nível de
protagonismo, nenhum deles sendo superior ao outro. Esta característica subversiva do estatuto
social feminino no século XVIII, estatuto então perfeitamente passivo e submisso face ao poder
masculino, é subsidiária do modo de vida a dois do casal, sem casamento oficial e com igualdade
de mando e obediência entre ambos.
b) Mas a Lua, devido às suas fases, que aliás condicionam o poder de S/imunda, é também
símbolo do ritmo biológico da Terra, é medida do tempo, frutificadora da vida, guardadora da
morte, dispensadora de geração. E é deste modo que Blimunda, devido aos seus poderes, é
aquela que acolhe as vontades humanas dos moribundos, as junta nas duas esferas para com
elas e com estas gerar energia vital ("O ar que Deus respira”) que, em conjunto com âmbar e o
íman, movem a Passarola. A junção das vontades humanas, teorizadas pela nova ciência, que
produzem mais força, mais vontade, tão imensa que faz os Homens subirem aos céus, significa
aqui, simbolicamente, a Primavera mítica que arranca a Humanidade do dogma da religião, do
terror inquisitorial e da tecnologia supersticiosa, três símbolos que designam uma só realidade: a
morte humana, o pensamento falso e passivo, a vontade resignada que enquadrava o Portugal da
época. Blimunda é a mulher liberta do futuro, que trabalha ao lado do marido e em ele tudo vive e
decide, é a nova mulher, é a não-mulher coquete-objecto (de notar que nunca é descrito o corpo
de Blimunda, a não ser uma ligeira referência à sua altura e à sua magreza (p. 56), é aquela em
que, à imitação de Julieta, de Inês, de Isolda, de Heloísa, de Mariana Alcoforado, o amor vence, e
vence ao ponto de durante nove anos não desistir de procurar o seu amado até que, encontrando-a,
permitir-se ficar deste "grávida” espiritualmente, comungando em si a vontade de Baltasar.
A mãe da pedra
Uma outra situação-acontecimento de cariz mítico em Memorial do Convento constitui-se com a
gesta heróica, epopeica, do transporte da pedra gigante de mármore, a mãe da pedra, de Pêro
Pinheiro para Mafra. Desde o início, a narração anormaliza as situações descritivas: o tamanho
gigantesco da pedra, o carro especialmente construído para o seu transporte (uma “nau da índia”),
as duzentas juntas de bois e os seiscentos homens necessários para o puxarem, os difíceis
obstáculos do caminho, à semelhança das narrativas de heróis clássicos, em que se anunciam os
“trabalhos” fabulosos que terão de ser contornados e o esforço imperioso, mais do que humano,
que terá de ser despendido.